Quando o Collins Dictionary destacou “vibe coding” como palavra do ano de 2025, o termo rapidamente ganhou interpretações superficiais. Para alguns, virou sinônimo de improviso. Para outros, um símbolo de que “qualquer um pode programar agora”.
Nenhuma dessas leituras chega ao cerne da questão.
“Vibe coding” não fala apenas sobre código. Ele sinaliza uma mudança cultural mais profunda: a transição de um modelo onde pessoas precisavam se adaptar à lógica das máquinas para outro em que a tecnologia começa a operar a partir da intenção humana.
Com a evolução da inteligência artificial, grande parte da complexidade técnica deixa de estar na execução manual e passa a ser absorvida pelos sistemas. Isso não elimina a engenharia, mas desloca o foco. A pergunta deixa de ser “como escrever o código” e passa a ser “qual problema estamos resolvendo e por quê”.
Essa mudança tem impacto direto na cultura das empresas. Times passam a ser valorizados não apenas pela execução técnica, mas pela capacidade de formular bons problemas, dar direção clara e tomar decisões com base em contexto. A intuição ganha espaço, mas não como substituta do método. Ela funciona como ponto de partida, não como destino final.
Aqui mora um risco importante. Confundir intenção com ausência de governança é um erro comum. Empresas maduras entendem que, quanto mais poderosas se tornam as ferramentas, maior precisa ser a clareza de objetivos, processos e responsabilidades.
Nesse sentido, “vibe coding” é menos sobre liberdade irrestrita e mais sobre maturidade organizacional. Ele expõe a diferença entre empresas que usam tecnologia como experimento e aquelas que a incorporam como parte estrutural da forma de trabalhar.
A integração da IA ao dia a dia não transforma apenas como sistemas são construídos, mas como decisões são tomadas, prioridades são definidas e inovação acontece. O código deixa de ser o centro da conversa. A cultura passa a ser.
No fim, o termo pode até parecer informal, mas o movimento que ele representa é sério. Empresas que entenderem essa transição não vão discutir se a IA substitui pessoas, mas como ela amplia a capacidade humana de pensar, decidir e criar com responsabilidade.